01 de agosto 2018

Obras de Monteiro Lobato serão domínio público a partir de 2019

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Já imaginou o leitor um encontro dos personagens do Sítio do Picapau Amarelo com a boy band One Direction? Recriações como essa, já publicada em forma de fanfics por admiradores de Monteiro Lobato na internet, dão um gostinho do tipo de adaptação que a obra do autor poderá ganhar a partir do ano que vem. No dia 1 de janeiro de 2019 os títulos do escritor paulista, cuja morte completou 70 anos no último 4 de julho, pertencerão ao mundo.

Qualquer editora poderá publicar suas histórias, sem obrigação de responder à Lei de Direitos Autorais. E isso inclui desde reedições – como as da Globo Livros, que terá mais três títulos lançados, voltados para colecionadores, nos próximos meses – as adaptações ao sabor da hora, algumas distantes do espírito original. Um divisor de águas para uma obra que, há décadas, molda o imaginário nacional.

Em todas as quatro edições do Retratos da Leitura, pesquisa do Instituto Pró-Livro que desde 2001 vem mapeando a relação dos brasileiros com os livros, Lobato foi o escritor mais lembrado dos entrevistados. Sua entrada no domínio público promete causar um impacto cultural e editorial.

Segundo informações de bastidores, diversas editoras já correm para garantir a sua versão dos sucessos do escritor. A Companhia das Letras deve publicar a obra completa ao longo de 2019, com o texto original e novas ilustrações. A Editora FTD é outra que prepara edições próprias. “Sabemos que há um movimento das editoras de repaginar a obra do Lobato”, diz Luís Antonio Torelli, presidente do Instituto Pró-Livro.

Foram vendidos 4,2 milhões de exemplares dos livros de Lobato pela Globo Livros entre 2008 e 2017. Mas, a exemplo do que ocorreu recentemente com outros autores icônicos, a entrada em domínio público também tem um lado controverso. Nunca haverá garantia de que todas edições ganharão a qualidade que os títulos exigem. Sem falar nas releituras excêntricas. “Com a carnavalização que temos no campo das artes hoje, é certo que também haverá muita traição ao original”, afirma João Luís Ceccantini, docente do Departamento de Literatura da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp, e uma das referências em Monteiro Lobato no País.

Um caso recente aconteceu com O Pequeno Príncipe. Livre de direitos desde 2015, o clássico de Saint-Exupéry já rendeu até uma versão com “ensinamentos da Bíblia”. Não há limites para a criatividade – basta lembrar de mashups de clássicos de Jane Austen (Orgulho e preconceito com zumbis) e Machado de Assis (Dom Casmurro e os discos voadores).

Para Ziraldo, criador da turma do Pererê e do Menino Maluquinho, é quase impossível aplicar esse conceito a Monteiro Lobato. “Uma obra como a dele é intocável, não há nada a acrescentar ou cortar”, opina. “Não vejo possibilidade de reinventar uma coisa que deu certo. Ele foi um pioneiro – é insuperável o que fez para as crianças.”

Ceccantini, no entanto, defende alterações pontuais em trechos hoje considerados racistas, como os que comparam a Tia Nastácia, a quituteira negra do Sítio, com uma macaca. Por causa de imagens como essa, o autor vem sendo alvo de polêmicas. Em 2010, o Conselho Nacional de Educação determinou que Caçadas de Pedrinho não fosse mais distribuído nas escolas públicas (depois, o MEC recomendou que se reconsiderasse a decisão).

“Sei que é polêmico, e nesse aspecto sou inclusive uma voz dissonante entre lobatianos, mas defendo que haja lugar no mercado para diferentes versões. Além das originais, outras novas, com essas passagens editadas”, afirma Ceccantini. “Não se trata de higienizar a obra, mas de fazer pequenas cirurgias pensando numa maior circulação dos títulos entre as crianças.”

O turbulento “percurso ideológico” do escritor também poderá ganhar nova revisão em 2019. É o que espera a crítica literária Marisa Lajolo, que prepara, em parceria com Lilia Moritz Schwarcz, uma biografia do autor do Sítio do Picapau Amarelo. Ela acredita que uma maior difusão de sua obra adulta ajude a jogar luz em um Lobato “múltiplo”, com todas as suas contradições. Um exemplo é sua abordagem em relação ao personagem Jeca Tatu. Depois de retratá-lo como um estereótipo do parasita da roça, o escritor mudou e passou a simpatizar com sua luta contra o latifúndio.

Se o texto de Monteiro Lobato estará livre, leve e solto no ano que vem, o mesmo não se pode dizer das ilustrações do Sítio do Picapau Amarelo. Administrador da obra de Monteiro Lobato desde 1996, Álvaro Gomes explica que os ilustradores das novas edições não poderão reproduzir caracterizações que remetam aos programas da TV Globo, que contam com uma proteção de 70 anos a partir da primeira exibição (1977).